Depois de criar uma vertical de logística e entrar em crédito com a aquisição da Flip, a Olist abre um capítulo em que a inteligência artificial deixa de ser ferramenta de apoio e passa a ser o eixo de produto, operação e crescimento.
"Nós acreditamos que ao longo dos próximos meses a Olist tem que ser comparável com qualquer empresa que nasceu como uma AI native", afirmou o fundador e CEO Tiago Dalvi, em entrevista à Bloomberg Línea.
Fundada em 2013 e conhecida pelo ERP voltado a pequenos e médios negócios, a empresa começou o ano crescendo 50% ano contra ano e acelerou para 65%. A expansão para um ecossistema — integração com marketplaces, serviços financeiros e logística — ampliou também a lista de concorrentes, que vai de Totvs e Locaweb a Nuvemshop, Omie e Cora.
Os números da operação
A Envios da Olist, vertical lançada oficialmente há um ano, cresceu oito vezes. Hoje, 100% do contato inicial com clientes dessa divisão é conduzido por agentes de IA.
Na área comercial, agentes autônomos respondem por cerca de 20% dos fechamentos de ponta a ponta, concentrados em prospecção, qualificação e contas de menor complexidade. Segundo Dalvi, o tíquete médio subiu quase 50% no período — a empresa não revela o valor.
A base soma pouco menos de 60 mil clientes ativos. Mais da metade usa recursos de IA em algum ponto da jornada, e cerca de 30% recorrem a essas ferramentas de forma recorrente.
No centro dos investimentos está a Lis, orquestradora lançada em julho de 2025 que opera em WhatsApp, aplicativo, texto e voz e já responde por quase 100% do atendimento de nível primário. Ao todo, são mais de 30 agentes ativos e aproximadamente 75 mil automações executadas por mês.
Construída sobre múltiplos modelos de linguagem, abertos e fechados, a Lis busca equilibrar custo e sofisticação conforme o caso de uso. O custo por ação executada via IA caiu cerca de cinco vezes em 18 meses, segundo o CEO — que projeta modelos proprietários nos próximos anos, por custo e por defesa da inteligência da casa.
A virada de chave
A reorganização levou ao encerramento da Loja Olist, produto que originou o negócio há 11 anos e cedeu espaço a soluções de maior escala e recorrência.
A prioridade nasceu nas metas do CEO e do conselho e desceu a todas as áreas: times de engenharia, produto e design migraram de squads grandes para grupos de três a cinco pessoas. Pouco mais da metade da engenharia já gera código a partir de prompts, e a proficiência em IA virou critério nos ciclos semestrais de desempenho.
Não houve demissões atribuídas à IA, segundo Dalvi. O suporte de nível primário teve redução pontual, com a maior parte dos profissionais realocada para atendimento complexo ou customer success. A companhia tem 652 funcionários.
Os planos serão bancados por ora com caixa próprio, que o executivo classifica como robusto desde a Série E de US$ 186 milhões liderada pela Wellington Management em 2021 — rodada que levou a startup ao status de unicórnio. Uma nova captação deve começar a ser prospectada a partir do ano que vem.


