A italiana pagou em dinheiro por uma plataforma avaliada em US$ 1,79 bilhão na transação — uma queda de 92% em relação ao pico de 2021. Apesar da desvalorização, o Miro tem mais de 4 milhões de usuários pagantes, US$ 600 milhões em receita recorrente anual e opera no azul.
A Bending Spoons repetiu o movimento que virou sua marca registrada. A companhia italiana anunciou a compra do Miro, plataforma de colaboração visual, por US$ 1,36 bilhão em dinheiro, em uma transação que avalia a empresa em US$ 1,79 bilhão.
O número ganha outra dimensão quando comparado ao passado recente. No fim de 2021, depois de uma rodada de US$ 400 milhões, o Miro foi avaliado em US$ 17,5 bilhões. A queda chega a 92% em pouco mais de quatro anos.
Fundada em 2011 como uma ferramenta de quadro branco chamada RealtimeBoard, a empresa foi uma das grandes beneficiadas pela migração forçada ao trabalho remoto. Com escritórios vazios, as companhias descobriram que precisavam replicar a experiência de rabiscar um quadro junto com os colegas — e a plataforma aproveitou a onda. Entre 2020 e 2022, a base saltou de 5 milhões para cerca de 30 milhões de usuários, e a carteira de clientes pagantes cresceu 550%.
O ajuste depois da euforia
O pós-pandemia cobrou a conta. Com a desvalorização dos múltiplos de SaaS aplicados a esse tipo de produto, o Miro precisou enxugar a operação. De cerca de 1,2 mil funcionários em 2022, a empresa cortou 119 pessoas em fevereiro de 2023 e outras 275 em outubro de 2024.
Ainda assim, o ativo comprado não é um negócio quebrado. São mais de 4 milhões de usuários pagantes e 100 milhões no total, com aproximadamente US$ 600 milhões em receita recorrente anual. Segundo a Bending Spoons, 90% desse faturamento vem de contas corporativas e enterprise, e a companhia opera no azul, com cerca de US$ 435 milhões em caixa líquido.
Hoje o Miro se posiciona como um "AI innovation workspace", com assistentes de IA para as ferramentas de quadro, fluxos automatizados, prototipagem e conectores que puxam contexto de GitHub, Jira e Slack. A plataforma integra mais de 250 aplicativos e mantém parcerias com Atlassian, Cisco, Microsoft e Zoom.
Um playbook já testado
Não é a primeira vez que a Bending Spoons executa a jogada, nem a primeira em 2026. Em agosto, poucas semanas depois de estrear na Nasdaq com valuation de US$ 18 bilhões, a companhia comprou o Airtable por US$ 1,285 bilhão — plataforma no-code que chegou a valer US$ 11 bilhões em dezembro de 2021. Nos meses anteriores, o grupo de Milão já havia levado a histórica AOL e a plataforma de ingressos Eventbrite.
O padrão é bem delimitado: grandes nomes de software precificados na euforia como se fossem virar gigantes, mas que amadureceram para negócios sólidos, de crescimento mais lento, com receita recorrente consistente e base de usuários estabelecida. O portfólio da italiana reúne Evernote, WeTransfer, Vimeo, Meetup, StreamYard e o app de edição de vídeo Splice, entre outros.
O método, segundo o CEO e cofundador Luca Ferrari, é sempre o mesmo: reformular a experiência do usuário, ajustar a monetização e cortar custos com agressividade, em um modelo que mistura operação de tecnologia com lógica de private equity. A diferença que a companhia faz questão de reforçar é que nunca revendeu um negócio adquirido.
Fonte original: Startups


