O volume de crédito concedido pelas fintechs digitais brasileiras alcançou R$ 53,8 bilhões em 2025, um avanço de 51% sobre o ano anterior. O dado consta da 6ª edição da Pesquisa Fintechs de Crédito Digital, realizada pela Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) em parceria com a PwC.
O número marca uma virada de agenda no setor. Durante anos, o debate girou em torno da inclusão financeira — abrir contas, movimentar recursos, pagar pelo celular. Esse capítulo, na leitura do mercado, está em grande medida resolvido.
"Milhões de brasileiros já conseguem abrir contas, fazer pagamentos e movimentar recursos pelo celular. O próximo passo é ampliar o acesso ao capital produtivo, e as fintechs estão assumindo esse protagonismo", afirma Wagner Moraes, economista e CEO da A&S Partners, especialista em macroeconomia, fintechs e meios de pagamento.
Da conta digital ao crédito
A distinção é relevante. Abrir uma conta digital é um evento de baixo atrito e baixo risco para a instituição. Conceder crédito exige modelo de risco, capital e capacidade de absorver perdas — um teste bem mais duro para quem chegou depois.
O salto de 51% sugere que uma parcela das fintechs passou nesse teste. Segundo Moraes, o crescimento mostra que a descentralização bancária deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para se tornar um vetor de desenvolvimento econômico.
O sistema financeiro brasileiro segue altamente concentrado. Mas começa a dividir espaço com modelos capazes de oferecer análises de risco mais inteligentes, processos menos burocráticos e produtos mais aderentes à realidade de pequenos empreendedores e empresas que historicamente encontraram dificuldade para acessar crédito.
O efeito sobre a economia real
Na avaliação do especialista, a competição promovida pelas fintechs beneficia toda a atividade econômica. Quando mais empresas conseguem acessar recursos para investir, contratar e crescer, o dinamismo se espalha para além do setor financeiro.
"O crédito deixa de ser apenas um produto financeiro e passa a funcionar como instrumento de geração de renda, produtividade e desenvolvimento", diz Moraes.
A leitura final do levantamento é que o Brasil entrou definitivamente em uma nova etapa da evolução do seu sistema financeiro — e que a métrica de sucesso mudou de lugar.
"A verdadeira transformação não será medida apenas pela quantidade de contas digitais abertas, mas pela capacidade dessas novas instituições de ampliar o crédito de forma sustentável, competitiva e acessível", conclui o economista.
O desafio adiante é justamente esse: sustentar o ritmo de expansão sem deteriorar a qualidade da carteira — um equilíbrio que o setor ainda precisará provar ao longo dos próximos ciclos.



