O novo capítulo da cannabis medicinal no Brasil tem a forma de um pó branco cristalino: o CBD isolado, com pureza acima de 98%, que desde maio pode ser vendido como insumo para farmácias de manipulação. A mudança foi destravada pela RDC 1.015/2026, da Anvisa, publicada em fevereiro e em vigor desde maio, que pela primeira vez autoriza o canabidiol como Insumo Farmacêutico Ativo no setor magistral.
É nessa janela que aposta a Brascann, distribuidora liderada pelo farmacologista Fabricio Pamplona e pelo economista Alex Silveira. A empresa se apresenta como a primeira distribuidora especializada em canabinoides do país e fornece CBD isolado para 23 farmácias de manipulação. A unidade de insumos, lançada em março, já responde por 32% da receita da companhia.
Os números ajudam a explicar o entusiasmo. Entre o envio do material à imprensa e a entrevista, a base de clientes passou de 16 para 23 farmácias, alta de quase 50% em poucas semanas. Segundo Pamplona, há uma demanda reprimida: as farmácias procuram o insumo, mas quase ninguém tem para oferecer.
O contexto de mercado é favorável. A cannabis medicinal movimentou R$ 970 milhões no Brasil em 2025, alta de 14% sobre o ano anterior, e atende cerca de 870 mil pacientes, segundo a consultoria Kaya Mind. A projeção é que o setor ultrapasse R$ 1 bilhão em 2026 e chegue a R$ 1,2 bilhão até 2027, com potencial de 6,9 milhões de consumidores no longo prazo.
A tese da Brascann se apoia em preço e personalização. Hoje, um mês de tratamento com produtos industrializados custa entre R$ 700 e R$ 1.200 nas drogarias. Com a manipulação, o valor pode cair para abaixo de R$ 500, uma redução que pode chegar a 50% dependendo da formulação. A partir do cristal importado, a farmácia prepara soluções orais, cápsulas, sprays sublinguais e produtos tópicos, como cremes e géis, prescritos pelo médico.
Nascida com capital dos próprios sócios e no azul desde o primeiro trimestre, a empresa projeta ultrapassar R$ 1 milhão em faturamento consolidado ainda no terceiro trimestre. A meta é chegar a cerca de 60 farmácias até o fim de 2026, além de atender associações de pacientes. Por ora, o insumo vem dos Estados Unidos, já que o cultivo nacional só será autorizado a partir de agosto e deve levar anos para ganhar escala.
A concorrência ainda é limitada, porque grandes distribuidoras enxergam o segmento como complexo e de baixo volume. Para Pamplona, a cannabis entra em uma fase menos barulhenta e mais técnica, em que a disputa deixa de ser sobre aprovação de produtos e passa a girar em torno de quem fornece os ingredientes.
Fonte original: Exame — https://exame.com/negocios/anvisa-abre-mercado-de-cbd-para-farmacias-de-manipulacao-e-esta-empresa-quer-lidera-lo/


